domingo, 25 de janeiro de 2009

Os meninos de ninguém



Ninguém é de nada, e nada é de ninguém. São assim que se constroem "famílias" condenadas pela sociedade que as discrimina, que lhes dá um tecto falso, que se encarrega de formar ou não os meninos que ninguém quis. Todos nós somos culpados por virarmos a cara, sem nenhum pudor, por banalizarmos os contextos, os excertos das histórias que vamos ouvindo aqui e ali, que comentamos em conversas de café, mas que não nos pertencem e por isso vamos deixando para trás ao virar de cada esquina. E entre narizes sujos e dentes que faltam, suspiros calados e vozes inaudíveis, numa mistura de solidão, revolta e mágoa por serem só mais um entre muitos, às vezes consegue notar-se a alegria pelo carinho voluntário dos que por ali vão passando, dos funcionários, dos professores, dos estranhos que se entranham e desentrenham, que vão estando sem estar, que são pontos numa vida que tem tanto de diferente como de igual à de qualquer um de nós. Mas estes abrigos contam histórias que não caberiam numa caixinha de más memórias, inscrevem cenas de violência omitidas, abandonos e maus tratos, que acabam por desenhar personalidades de introspecção e desconfiança, instáveis e fantasiosas. O primeiro passo para a marginalidade, o segundo passo para a escuridão, o terceiro para a fragilidade, o quarto, o quinto, o sexto, mil passos para a exclusão. São assim estes meninos que nasceram num mundo a preto e branco, os meninos dos olhos tristes e que nunca aprenderam a sorrir.

Capas Negras de Saudade



Há um coração que palpita sempre mais do que os outros, que percorre caminhos incertos e destemidos, que se esconde por detrás do medo e da irreflexão, que atravessa linhas ténues de paixões e promessas perdidas no tempo. Quando somos estudantes não há amor nem há dor, porque tudo nasce e morre no mesmo instante como um relâmpago que cruza sem avisar o céu inteiro. Porque nós estudantes estamos protegidos por uma capa de irreverência, que se rasga com o tempo. É como se conseguisemos eternizar os olhares, os lugares, as pandeiretas e as fitas e levá-los conosco para o mundo em que não queremos entrar. Não há regresso ao passado, às festas que acabavam com o nascer do sol, às caras que eram sempre as mesmas no bar da faculdade, às noites de estudo com livros de mil páginas, às serenatas que nos cantavam e encantavam com a "Madalena". E então pensamos já com um certo tom de saudade e nostalgia que podiamos ter aproveitado até ao limite todos os minutos, horas ou segundos deste tempo que não vai voltar. Às vezes o Porto parava para nos ver passar, cheios daquela energia que só nós é que temos, com capas negras e t-shirts roxas, e quando desciamos os clérigos a correr era como se o mundo começasse a girar ao contrário e nós deixavamo-nos levar com ele. Mas como em quase tudo na vida, como tudo o que começa e acaba, como no jardim de infância: entramos e saimos a chorar...
E afinal quando olharmos para trás ficou aqui um bocadinho de nós.

sábado, 24 de janeiro de 2009

O "nosso" Piano

Quando era pequena tinha aulas de piano com uma senhora que comia maçã ao mesmo tempo que me olhava de cima a baixo como se eu fosse uma vespa venenosa. Um atentado à música. Daquela sala do Conservatório havia uma janelinha que dava para um mundo distante, porque ao mesmo tempo que os pássaros voavam do lado de fora, nós tinhamos que ouvir Bach e Chopin sem sequer conhecer a sua essência porque isso é daquelas coisas que "nós" já nasciamos a gostar porque éramos os meninos que tinham a sorte ou o azar de ter de viver o que estava imposto à partida por uma sociedade que se acha diferente dos restantes mortais. E nós não podiamos correr atrás dos pássaros porque eles têm asas e nós não, e por isso é impossível apanhá-los. E assim crescemos num meio que nos disseram ser o nosso, e aqueles amigos, que são os mesmos até hoje, provavelmente também eles tiveram aulas de música, ballet e francês e tantas outras coisas que nos impingiram só porque sim. Agora que olho para trás percebo que esta vida involuntária é a mesma que existe hoje e que existirá para toda a vida porque estamos condenados a ser o que os outros querem que nós sejamos, porque afinal de contas também é isso que queremos ser, e é isso que vamos querer que os que hão-de vir sejam. Porque há vidas que são um ciclo, e estarão para sempre condenadas a sê-lo. Não vale a pena esperar por aquilo que nunca há-de vir, porque nada será diferente amanhã. Estaremos sempre rodeados do mesmo tipo de pessoas, que vivem num tempo igual ao nosso, num mundo que é real ou imaginário, mas que é o único que conhecemos.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os Livros

Os livros são assim, brancos e vazios de vida, cheios de histórias que não existem e tentam dar-nos a ilusão de que somos como as personagens inacabadas. Se escrevo é para poder ser aquilo que não sou, se não escrevo não sou ningém. E ninguém é de nada, como um livro branco, ou uma tela vazia, ou uma página sem palavras. É uma travessia solitária. Um dia os livros serão nossos e quando a história acabar vai para a prateleira como as histórias de amor que vivemos e que guardamos de uma forma que o tempo não apaga. Deve ser por isso que o livro que me deste continua aqui ao meu lado, fechado para sempre, mas aqui. A porta fechou-se por detrás de um mundo que ficou por descobrir, que mergulhou num caos intenso. Às vezes é difícil escolher o caminho, mas quando nos apercebemos há uma porta à nossa frente que se abre e nos convida a entrar. Como a outra, também esta um dia está condenada a fechar-se, e mil portas se abrem e fecham, como as da infância, como as da adolescência, como as da vida. Escrevemos para resgatar aquilo que sabemos perdido para sempre, para tentar abrir portas trancadas, para descobrir porque é que um dia vivemos num mundo igual ao das histórias. Mas não vale a pena pensar, não vale a pena sentir, não vale a pena saltar de porta em porta porque a vida é tão vazia como a que ficou para trás e é cheia daquilo que não existe a frente. Sempre que o tempo se acaba percebemos que afinal tudo tem um significado, para os que ficam e para os que vão. Quando o tempo se acabar teremos saudades das histórias que nos contavam quando éramos crianças, teremos saudades das que vivemos quando éramos adolescentes, e teremos saudades das que o tempo nos roubou. Mas tudo tem um fim, até para as histórias de mim.