
Ninguém é de nada, e nada é de ninguém. São assim que se constroem "famílias" condenadas pela sociedade que as discrimina, que lhes dá um tecto falso, que se encarrega de formar ou não os meninos que ninguém quis. Todos nós somos culpados por virarmos a cara, sem nenhum pudor, por banalizarmos os contextos, os excertos das histórias que vamos ouvindo aqui e ali, que comentamos em conversas de café, mas que não nos pertencem e por isso vamos deixando para trás ao virar de cada esquina. E entre narizes sujos e dentes que faltam, suspiros calados e vozes inaudíveis, numa mistura de solidão, revolta e mágoa por serem só mais um entre muitos, às vezes consegue notar-se a alegria pelo carinho voluntário dos que por ali vão passando, dos funcionários, dos professores, dos estranhos que se entranham e desentrenham, que vão estando sem estar, que são pontos numa vida que tem tanto de diferente como de igual à de qualquer um de nós. Mas estes abrigos contam histórias que não caberiam numa caixinha de más memórias, inscrevem cenas de violência omitidas, abandonos e maus tratos, que acabam por desenhar personalidades de introspecção e desconfiança, instáveis e fantasiosas. O primeiro passo para a marginalidade, o segundo passo para a escuridão, o terceiro para a fragilidade, o quarto, o quinto, o sexto, mil passos para a exclusão. São assim estes meninos que nasceram num mundo a preto e branco, os meninos dos olhos tristes e que nunca aprenderam a sorrir.