sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Os Livros

Os livros são assim, brancos e vazios de vida, cheios de histórias que não existem e tentam dar-nos a ilusão de que somos como as personagens inacabadas. Se escrevo é para poder ser aquilo que não sou, se não escrevo não sou ningém. E ninguém é de nada, como um livro branco, ou uma tela vazia, ou uma página sem palavras. É uma travessia solitária. Um dia os livros serão nossos e quando a história acabar vai para a prateleira como as histórias de amor que vivemos e que guardamos de uma forma que o tempo não apaga. Deve ser por isso que o livro que me deste continua aqui ao meu lado, fechado para sempre, mas aqui. A porta fechou-se por detrás de um mundo que ficou por descobrir, que mergulhou num caos intenso. Às vezes é difícil escolher o caminho, mas quando nos apercebemos há uma porta à nossa frente que se abre e nos convida a entrar. Como a outra, também esta um dia está condenada a fechar-se, e mil portas se abrem e fecham, como as da infância, como as da adolescência, como as da vida. Escrevemos para resgatar aquilo que sabemos perdido para sempre, para tentar abrir portas trancadas, para descobrir porque é que um dia vivemos num mundo igual ao das histórias. Mas não vale a pena pensar, não vale a pena sentir, não vale a pena saltar de porta em porta porque a vida é tão vazia como a que ficou para trás e é cheia daquilo que não existe a frente. Sempre que o tempo se acaba percebemos que afinal tudo tem um significado, para os que ficam e para os que vão. Quando o tempo se acabar teremos saudades das histórias que nos contavam quando éramos crianças, teremos saudades das que vivemos quando éramos adolescentes, e teremos saudades das que o tempo nos roubou. Mas tudo tem um fim, até para as histórias de mim.

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