sábado, 24 de janeiro de 2009

O "nosso" Piano

Quando era pequena tinha aulas de piano com uma senhora que comia maçã ao mesmo tempo que me olhava de cima a baixo como se eu fosse uma vespa venenosa. Um atentado à música. Daquela sala do Conservatório havia uma janelinha que dava para um mundo distante, porque ao mesmo tempo que os pássaros voavam do lado de fora, nós tinhamos que ouvir Bach e Chopin sem sequer conhecer a sua essência porque isso é daquelas coisas que "nós" já nasciamos a gostar porque éramos os meninos que tinham a sorte ou o azar de ter de viver o que estava imposto à partida por uma sociedade que se acha diferente dos restantes mortais. E nós não podiamos correr atrás dos pássaros porque eles têm asas e nós não, e por isso é impossível apanhá-los. E assim crescemos num meio que nos disseram ser o nosso, e aqueles amigos, que são os mesmos até hoje, provavelmente também eles tiveram aulas de música, ballet e francês e tantas outras coisas que nos impingiram só porque sim. Agora que olho para trás percebo que esta vida involuntária é a mesma que existe hoje e que existirá para toda a vida porque estamos condenados a ser o que os outros querem que nós sejamos, porque afinal de contas também é isso que queremos ser, e é isso que vamos querer que os que hão-de vir sejam. Porque há vidas que são um ciclo, e estarão para sempre condenadas a sê-lo. Não vale a pena esperar por aquilo que nunca há-de vir, porque nada será diferente amanhã. Estaremos sempre rodeados do mesmo tipo de pessoas, que vivem num tempo igual ao nosso, num mundo que é real ou imaginário, mas que é o único que conhecemos.

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